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Vinho e outras bebidas alcoólicas VI: A glória divina

By : Gabriell Stevenson

A figura divina, especialmente a de Jesus, é frequentemente usada pelos defensores do consumo de bebidas alcoólicas. Usam textos fora de seus contextos sociais, culturais e situacionais para defenderem a sua crença. Todavia, o vinho alcoólico nunca é usado para representar algo divino.

No livro das Revelações, por exemplo, João escreveu:

Também este beberá do vinho da ira de Deus, que se deitou, não misturado, no cálice da sua ira; e será atormentado com fogo e enxofre diante dos santos anjos e diante do Cordeiro.” – Apocalipse 14.10

No texto fala-se que a ira de Deus é como um cálice cheio de vinho “não misturado”, puro. Esta pureza indica um vinho sem nenhum tipo de mistura, seja de água ou de fermento. O vinho sem mistura era o chamado vinho doce, aquele que possuía o seu percentual de açúcar normalizado, sem ter sido destruído pelo acréscimo de água ou de fermento. A ira de Deus representa o seu juízo justo e moral contra os pecadores e seus pecados [Jo 3.36 | Rm 2.5-9 | Ap 14.9-11] e apenas um vinho puro e não embriagante poderia representá-lo.

Jesus também usou o vinho como o principio de Seus milagres aqui na terra:

Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram. E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho...” – João 2.7-9

Esse vinho – como vimos na parte IV desta série – não era o alcoólico, mas um vinho puro, livre de fermento. Os dados apresentados no artigo sobre as bodas de Caná apresentam fortes razões para rejeitarmos a opinião de que Jesus produziu vinho embriagante e/ou participou de uma festa de glutonarias e bebedeiras. Esse milagre demostrou a soberania de Deus na criação e a glória de Jesus como o Messias. Se Cristo tivesse dado de beber vinho alcoólico para os convidados das bodas, Ele estaria indo contra os princípios de Deus, que ditam o vinho embriagante como sendo alvoroçador [Pv 20.1] e como um caminho de morte [Pv 23.29-32] e que é errado dar bebida alcoólica para o próximo [Hc 2.15a].

Também havia uma determinação quanto ao consumo de bebidas alcoólicas para os sacerdotes:

Não bebereis vinho nem bebida forte, nem tu nem teus filhos contigo, quando entrardes na tenda da congregação, para que não morrais; estatuto perpétuo será isso entre as vossas gerações; E para fazer diferença entre o santo e o profano e entre o imundo e o limpo.” – Levítico 10.9-10

A glória de Deus era o que estava dentro da Tenda da Congregação; a glória representa o caráter de Deus – quem Deus é [Êx 33.18; 34.5-8]. E se a glória de Deus não aceitava a presença de bebida alcoólica dentro da Tenda, não poderíamos crer que era licito consumir bebida alcoólica. Deus considerava imundo todo sacerdote que tivesse consumido álcool; note que Ele não fala a respeito de estar bêbado, mas ao simples fato de terem bebido vinho fermentado ou qualquer bebida forte.

O texto de Levítico aqui citado, não nos serve mais como mandamento, mas apenas como reflexão da relação entre as bebidas alcoólicas e a glória de Deus no período do Antigo Testamento. A Lei Mosaica passou, pois Cristo é o fim da Lei [Rm 10.4]. Contudo, como já fora citado por diversas vezes, ao longo desta serie sobre bebidas fermentadas, encontramos a sabedoria de Deus contra o consumo de bebida alcoólica [Pv 20.1; 23.29-32 | Mt 24.48-51 | Ef 5.18] e contra a ação de dar bebidas para outras pessoas [Hc 2.15].

Perceba que nos três casos demonstrados podemos perceber que a conclusão é sempre a mesma: a glória de Deus não se mistura e nem aceita o consumo de bebida alcoólica. Tanto no Antigo, como no Novo Testamento percebemos conselhos contra o consumo desse tipo de bebida. Eu não posso e nem estou dizendo que consumir bebidas alcoólicas seja pecado, necessariamente. Não posso porque a bíblia não o diz que é. Não estou porque em momento algum eu usei estas palavras (ou alguma parecida): "beber é pecado". Contudo, eu creio e afirmo que Deus não aprova o consumo de álcool. Como resolver essa aparente contradição de minhas palavras? É simples. Pense no divórcio. Deus odeia o divórcio [Ml 2.16], mas não é pecado divorciar-se [I Co 7.10-11]; o pecado está em contrair novo matrimônio se a causa do divorcio tenha sido qualquer coisa menos os motivos tolerados [Mt 19.9 | I Co 7.15]. Do mesmo modo, eu creio que Deus desaprova o consumo de bebidas alcoólicas. Nos dois casos há uma desaprovação da parte de Deus, porque o Senhor sabe a destruição que é causada com o divorcio e sabe, também, que tipo de caminho o consumidor de bebidas alcoólicas está trilhando [Pv 23.29-32]. Acredito que os sentimentos de Deus quanto a essas duas coisas devem ser levadas em consideração.

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Vinho e outras bebidas alcoólicas V: Santa ceia

By : Gabriell Stevenson

E, tomando o cálice, e havendo dado graças, disse: Tomai-o, e reparti-o entre vós; porque vos digo que já não beberei do fruto da vide, até que venha o reino de Deus. E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue, que é derramado por vós.” – Lucas 22.17-20

A Santa Ceia é mais uma vitima dos defensores do consumo de bebidas alcoólicas – mesmo que em pequena quantidade. Muitos, por ignorância, debatem afirmando que é bem possível que o vinho da Santa Ceia fosse um vinho fermentado; abrindo brecha para o pensamento de que o consumo de bebida alcoólica é de decisão pessoal de cada cristão.

Nem Lucas, nem qualquer outro escritor dos Evangelhos emprega a palavra oinos (vinho fermentado ou não) no tocante à Ceia do Senhor. Os escritores dos três primeiros evangelhos empregam a expressão fruto da vide [Mt 26.29 | Mc 14.25 | Lc 22.18]. O vinho não fermentado é o único fruto da vide, contendo aproximadamente 20% de açúcar e nenhum álcool; o vinho fermentado não é produzido pela videira.

Jesus instituiu a Santa Ceia quando Ele e seus discípulos estavam celebrando a Páscoa. A lei da Páscoa em Êxodo 12.14-20 proibia a presença de seor [Êx 12.15], palavra hebraica para fermento ou qualquer agente fermentador. Além disso, todo o hametz (qualquer coisa fermentada) era proibido [Êx 12.19; 13.7]. Deus dera essas leis porque a fermentação comumente simbolizava a corrupção e o pecado. Jesus, o Filho de Deus, cumpriu da Lei todas as exigências que cabiam a Ele [Mt 5.17]. Logo, teria cumprido a Lei de Deus para a Páscoa, e não teria usado vinho fermentado.

Certos documentos judaicos afirmam que o uso de vinho não fermentado na Páscoa era comum nos tempos do Novo Testamento. Por exemplo: “Segundo os Evangelhos Sinóticos, parece que no entardecer da quinta-feira da última semana de vida aqui, Jesus entrou com seus discípulos em Jerusalém, para com eles comer a Páscoa na cidade santa; neste caso, o pão e o vinho do culto de Santa Ceia instituído naquela ocasião por Ele, como memorial, seria o pão asmo e o vinho não fermentado do culto Sedar” (“Jesus”. The Jewish Encyclopaedia, edição de 1904. V.165).

Em uma de suas epístolas, Paulo também usou a mesma simbologia do fermento. Ele afirmou que os coríntios deveriam retirar de seu meio o fermento da maldade e da malícia, alegando o fato de que Cristo é a nossa Páscoa [I Co 5.6-8]; está claro que, para o apóstolo, o fermento e a santa ceia eram incompatíveis.

O Cristo Rei e Sacerdote – duas faces do mesmo ministério de Jesus – também deve ser levado em consideração.

No tocante ao sacerdócio de Cristo, sabemos que Ele não poderia ter consumido bebida alcoólica. Após a Sua morte e ressurreição, o Senhor Jesus subiu aos céus como Sumo Sacerdote para apresentar o Seu próprio sangue como propiciação pelos nossos pecados [Hb 3.1; 5.1-10] e um sacerdote não poderia chegar-se a Deus se houvesse consumido bebida alcoólica [Lv 10.9].

Assim como o pão asmo representava o corpo puro de Cristo, o fruto da vide representava o sangue incorruptível de Cristo. Uma vez que a Bíblia declara que nem o corpo e nem o sangue de Cristo experimentaram corrupção [Sl 16.10 | At 2.27 ; 13.37], esses dois elementos são corretamente simbolizados por aquilo que não é corrompido nem fermentado – ainda que os sacerdotes do Antigo Testamento pudessem consumir bebida alcoólica longe da presença de Deus, isso não poderia se aplicar a Jesus, pois Ele estava em constante comunhão com o Pai e não poderia se contaminar em momento algum de Sua santa vida.

E no tocante ao poder real de Jesus, devemos compreender que haviam sérios conselhos em relação ao consumo de bebida alcoólica pelos reis. Provérbios 31.4-5 diz: "... não é próprio dos reis beber vinho, nem dos príncipes desejar bebida forte; para que bebendo, se esqueçam da lei, e pervertam o direito de todos..." Perceba que o vinho embriagante e qualquer outro tipo de bebida alcoólica eram tidos como algo que perverteriam a mente dos reis e o direito do povo; note também que não se fala em o rei estar bêbado, mas sobre o mero consumo de bebida alcoólica, que obviamente iria levá-lo, em algum momento, a vacilar e embriagar-se.

Levando em consideração todos esses casos abordados, algo como o vinho fermentado não poderia simbolizar a Nova e Eterna Aliança de Deus conosco por meio de Jesus Cristo, pois ela é justa, reta, e livre de corrupção.

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Veja a mensagem anterior:Vinho e outras bebidas alcoólicas IV: Bodas de Caná

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Vinho e outras bebidas alcoólicas IV: As bodas de Caná

By : Gabriell Stevenson

Disse-lhes Jesus: Enchei de água essas talhas. E encheram-nas até em cima. E disse-lhes: Tirai agora, e levai ao mestre-sala. E levaram. E, logo que o mestre-sala provou a água feita vinho...” – João 2.7-9

O primeiro milagre que Jesus efetuou, segundo João, foi o de transformar água em vinho durante uma festa de casamento. Obviamente, este é mais um texto frequentemente deturpado por aqueles que alegam não haver nenhuma contradição bíblica quato a consumir bebida alcoólica, mesmo que seja só um pouco.

Ao lermos esta passagem de João 2.7-9 devemos levar em consideração o tempo e a cultura no qual está inserida, bem como as palavras usadas para descrever o acontecido.

O primeiro fato que devemos analisar é o de que essas festas – nos tempos de Cristo e dos apóstolos – duravam cerca de vários dias. Levando isso em consideração, não poderia ser vinho alcoólico este que Cristo criou; Jesus produziu cerca de 600 a 900L de vinho (v. 6-9) e consumir todo esta quantidade de vinho alcoólico deixaria todos na festa extremamente embriagados; essas festas não tinham uma longa pausa de um dia para o outro, elas se desenrolavam quase que sem parar; e estar bêbado é abominação para Deus [I Co 6.10]. Jesus Cristo é o Filho de Deus, e como tal não poderia fazer algo que desagradasse ao Pai [Jo 8.29]. Jesus não poderia ter transformado a água em vinho alcoólico, pois Ele mesmo não poderia colocar homens para estarem embriagados [Hc 2.15]; seria uma contradição contra Ele mesmo. Na verdade, olhando bem o texto, nos parece que todos estavam bem sóbrios até então; e não há nenhuma menção sobre alguém ter perdido os sentidos por estar bêbado durante as bodas.

O segundo fato a ser analisado são os dados históricos sobre o preparo e uso do vinho pelos judeus e por outras nações. Esses dados mostram que o vinho era frequentemente não fermentado e em geral misturado com água (Enciclopédia Bíblica Ilustrada de Zondervan, v.882 | Columella, Sobre a Agricultura 12.44.1-8). Entre os judeus dos tempos bíblicos, os costumes sociais e religiosos não permitiam o uso de vinho puro sem fermento, nem o fermentado. O Talmude fala, em vários textos, sobre a mistura de água com vinho (e.g., Shabbath 77ª; Pesahim 1086). Certos rabinos insistiam que, se o vinho fermentado não fosse misturado com três partes de água, não podia ser abençoado e contaminaria quem o bebesse. Outros rabinos exigiam dez partes de água no vinho fermentado para poder ser consumido. Em resumo, o tipo de vinho usado pelos judeus nos dias da Bíblia não era idêntico ao de hoje. Tratava-se de suco de uva recém-espremido; suco de uva misturado com água; vinho velho, fermentado ou não, diluído em água, numa proporção de até 20 para 1; se fosse servido não diluído em água isso seria considerado uma indelicadeza, contaminação e não poderia ser abençoado – isso nos lança uma luz do porque Jesus ter escolhido a água como o elemento primário para produzir o vinho.

O terceiro fato que devemos considerar é que este foi um milagre feito a fim de evidenciar “a Sua Glória” e levar as pessoas a crerem que Ele era o Filho de Deus (v. 11). Alegar que Jesus produziu e usou vinho alcoólico, não somente ultrapassa os limites das normas exegéticas, como também nos leva a um conflito com os princípios morais embutidos no contexto geral do ensino das Escrituras. Fica claro que, à Luz da natureza de Deus, este vinho não poderia ser alcoólico. O mestre-sala declarou, após provar o vinho: “... Todo homem põe primeiro o vinho bom e, quando já têm bebido bem, então, o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.” (v. 10). O “vinho bom” era o mais doce, livre de fermento, e que poderia ser consumido livremente; “bom” vem do grego kalos, que significa “moralmente excelente ou apropriado.” (v. 11)

À luz destes fatos, e do que já analisamos nos textos anteriores, conclui-se que a prática de ingestão de bebidas alcoólicas não é apoiada pela Bíblia Sagrada; logo é tolice insistir que Jesus foi um “consumidor inteligente” de bebidas alcoólicas e que nós, como cristãos, podemos consumí-las sem problema algum.

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Veja a mensagem anterior: "Vinho e outras bebidas alcoólicas III: Comilão e beberrão"

Vinho e outras bebidas alcoólicas III: Comilão e Beberrão

By : Gabriell Stevenson

Por todos os Evangelhos vemos Jesus sendo convidado a participar de comemorações [Jo 2.1-2] ou reuniões particulares na casa de alguém [Lc 14.1], ou até organizando, Ele mesmo, alguma ceia com os seus apóstolos [Lc 22.8]. Em todos estes lugares vemos a presença de fartura de alimento e vinho.

Quando Jesus realizava alguma reunião com seus apóstolos, não lhes negava alimento e bebida; mas não quer dizer que todos comiam e bebiam até se empanturrarem. Quando era convidado a estar em algum lugar – e o foi por várias vezes – também não passava dos limites. Porém, era comum todos comerem e beberem bem, afinal de contas eram momentos de descontração, comunhão ou de celebração.

Já sabemos que era normal o consumo de vinho não fermentado – o doce – como se fora água; devido às impurezas em lagos, poços, etc. Todos, certamente consumiam muito vinho não fermentado em comemorações e em reuniões. E os fariseus sabiam bem disso. Penso que os inimigos de Jesus usaram este conhecimento de que todos se fartavam a vontade, somando ao fato de que Jesus sempre era convidado a estar em algum lugar, para o acusarem de ser um comilão e beberrão [Lc 7.34]; queriam manchar a imagem de Jesus, para que ninguém o seguisse mais, porém foi o próprio Jesus quem disse que aquele que come e bebe com os beberrões é um mau servo (Mt 24.48-51). Jesus não poderia se comportar como um mau servo, envolvendo-se em lugares onde havia o consumo de bebida embriagante.

Quando se trata em não consumir álcool, muitos se defendem dizendo: “É pecado ser um beberrão, mas consumir um pouco de álcool não tem problema. Se houvesse problema, então deveríamos parar de comer, pois ser glutão, ou comilão, também é pecado. Deveríamos parar de comer, então, para evitarmos ser comilões.” Isso é um ótimo raciocínio lógico, contudo, esta forma de interpretação não é sempre válida. Devemos tomar cuidado com raciocínios lógicos e ficarmos principalmente com o que a Palavra de Deus nos diz, pura e integralmente. Comer é uma necessidade natural do corpo humano, consumir bebida alcoólica não o é. E mesmo sendo uma necessidade do corpo, vemos vários conselhos ao jejum – passar fome, literalmente, e orar muito, para que a carne enfraqueça e o espírito fique mais forte a cada novo jejum e oração.

Olhando para essas acusações contra Jesus eu percebo o porquê de Paulo ter dito para os bispos não serem dados ao vinho [oinos], e nem os diáconos a muito vinho [oinos] [I Tm 3.2-3, 8 | Tt 1.7]. A palavra dado, usada por Paulo vem do grego paroinon, que quer dizer literalmente “ao lado do vinho”, “perto do vinho” ou “com vinho”. Não creio que este vinho seja o embriagante, pois, como já vimos até então, o consumo de bebida alcoólica não é sustentado pela Palavra como sendo uma atitude sensata e correta, e Paulo aconselhou que os diáconos apenas não fossem dados a “muito vinho”. Creio que esta advertência seja para que os bispos e diáconos não se demorassem perto do vinho não fermentado, para que evitassem ser acusados de beberrões, como fizeram com Jesus; não era, e nem é pecado consumir vinho não fermentado, contudo deveria ser ingerido com moderação [II Tm 1.7 | Gl 5.13]. Percebo que essa exigência foi muito mais “pesada” sobre os bispos por eles estarem em uma posição mais elevada e de maior destaque, ao passo que os diáconos não possuem tanta atenção quanto eles.

Há evidências, também, que apontam para pessoas viciadas em vinho fresco sem fermento nos dias de Cristo e dos apóstolos (Plínio, História Natural, 14.28.139). Paulo certamente enfatizou o autocontrole para os bispos e diáconos – mas muito mais sobre os bispos. E o apóstolo não é o único que faz este tipo de admoestação. A literatura rabínica contém advertências a respeito do uso excessivo do suco doce de uva, sem fermentação. Essa literatura refere-se a tiros, uma bebida de uva que inclui “todos os tipos de sucos doces e mosto, mas não o vinho fermentado” (Tosef., Ned. IV.3); que “se for bebido com moderação, contribui para a liderança... se for bebido excessivamente, leva à pobreza” (Yoma, 76b). “Quem a bebe habitualmente [excessivamente], empobrecerá com certeza” (Enciclopédia Judaica, 12.533). Logo, um dos possíveis motivos de Paulo tê-los proibido de consumir vinho ou muito vinho seja o de evitar o vicio por parte dos bispos e diáconos.

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Vinho e outras bebidas alcoólicas II: Jesus e João Batista

By : Gabriell Stevenson

Porque veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Têm demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores.” – Lc 7.33-34

Assim como fazem com as palavras de Paulo a Timóteo, também há cristãos – e até não cristãos – que usam esta passagem para difamarem Jesus; afirmando que Ele era um consumidor de bebidas alcoólicas. Porém, como fizemos com I Timóteo 5.23 iremos analisar bem estes dois versículos de Lucas dentro do seu contexto real; com o auxilio do mesmo relato descrito por Mateus.

Em primeiro lugar, perceba que Jesus está fazendo um discurso para uma multidão que o cercava (v. 24); ele começa a falar a respeito de quem era João Batista – um profeta, e muito mais do que um profeta (v. 26-28). Durante o seu discurso, muitos homens que o ouviam declaravam a justiça de Deus (v. 29). Mas os fariseus rejeitaram aquilo que Jesus lhes dizia (v. 30). Em seguida, Jesus começa a relatar as afrontas que os fariseus lhes dirigiam (v. 33-34). E finaliza com uma grave repreensão contra o povo que habitava nas cidades em que operou a maior parte de seus milagres [Mt 11.20]; estas foram Corazim, Betsaida e Cafarnaum (v. 21-24).

Note que, quando Cristo falou as palavras “veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho” Ele estava se referindo ao que os fariseus declaravam sobre Ele; acusações infundadas contra Jesus para diluírem a Sua moral e justiça, e acabarem com o Seu ministério.

João Batista, de fato, não comia pão ou bebia vinho, pois este era o seu voto – o voto de nazireu [Nm 6.1-4]. Ser nazireu implica em não consumir nada que venha de uma vide; isso inclui até mesmo as uvas frescas. Jesus, por outro lado, não era nazireu e poderia consumir, sem nenhum problema, aquilo que provinha de uma vide; seja a própria fruta, o óleo, o vinagre ou o vinho, etc. A questão é, se este vinho o qual Jesus consumia era fermentado ou não, e existem boas evidências de que a resposta seja NÃO.

Além de textos como Efésios 5.18, Provérbios 20.1 e Provérbios 23.29-35, sabemos que na época de Cristo e dos apóstolos a água não era excelente para o consumo. “... a água em muitas localidades não era segura para uso. Doenças físicas, como a disenteria, frequentemente estavam relacionadas com água contaminada, sendo de comum ocorrência. Consequentemente, outras maneiras de matar a sede eram frequentemente recomendadas" (Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 7, p. 314). Uma dessas maneiras, e a principal delas, era o consumo de vinho não fermentado; consumir o vinho fermentado durante todo o dia, para saciar a sede, levaria a pessoa a estar bêbada constantemente, prejudicando sua vida privada e profissional.

Jesus certamente fazia o mesmo que seus contemporâneos, Ele consumia vinho não fermentado para matar a sua sede, ao invés de arriscar ter uma disenteria consumindo muita água possivelmente suja. Como Ele era convidado a sempre estar na casa de alguém ou participar de muitas festas e comemorações, acabava comendo e bebendo vinho frequentemente – mas frequentemente não implica dizer “em grande e exagerada quantidade”. Os fariseus usaram este fato apenas para difamá-lo – mentiram sobre Ele. Jesus apenas fez uma comparação do que diziam contra João Batista e o que diziam contra Ele próprio; como não tinham o que dizer contra João Batista, afirmaram que ele tinha demônio por não se comportar "normalmente" – já que comia gafanhotos e mel silvestre, ao invés de pão e vinho, e ainda por cima usava pele de camelo para se vestir; e como não tinham o que dizer contra Jesus, afirmaram que Ele era um comilão e beberrão por comer e beber normalmente.

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Vinho e outras bebidas alcoólicas I: Paulo e Timóteo

By : Gabriell Stevenson

 "Não bebas mais água só, mas usa de um pouco de vinho, por causa do teu estômago e das tuas frequentes enfermidades." - I Timóteo 5.23

Esse texto tem sido frequentemente usado por aqueles que desejam fazer a Bíblia apoiar o consumo de bebidas alcoólicas. Alguns chegam a dizer que o problema seria a ingestão de "muito vinho", ao passo que apenas "um pouco" não seria problema. Eles se baseiam, principalmente, em textos como esse: "Não erreis: ... nem os bêbados ... herdarão o reino de Deus." [I Co 6.10]; pensam que apenas aqueles que são "escravizados" pelo álcool é que não herdarão o reino, e assim, afirmam que um pouco de bebida alcoólica não faz mal, pois não nos deixarão bêbados.

Primeiramente, devemos notar o contexto no qual este concelho de Paulo está inserido. Analisando as palavras do apóstolo, vê-se que se trata de uma recomendação a alguém com problemas de estômago e talvez acometido por outras enfermidades não mencionadas. Então, o conselho de Paulo tem a ver com uma situação médica, e não com os membros da igreja indiscriminadamente.

Há basicamente duas hipóteses quanto ao vinho recomendado para as enfermidades de Timóteo:

1. Seria vinho alcoólico
2. Seria vinho sem álcool (o puro suco de uva). 

Às vezes, uma palavra no idioma original ajuda a esclarecer determinado texto bíblico, mas isso não acontece com I Timóteo 5.23, onde vinho é tradução da palavra grega oinos - palavra que tanto pode indicar vinho com álcool como vinho sem álcool.

Se o vinho fosse de fato alcoólico, estaria de acordo com uma ideia médica nos tempos de Paulo, a de que o vinho fermentado era um medicamento útil na cura de várias doenças (R. N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado, v. 5, p. 341). Se se tratasse de vinho fermentado, a ser ingerido como remédio, o conselho se assemelharia ao que aparece em Provérbios 31.6: "Daí bebida forte [shekar] aos que perecem e vinho [yaín] aos amargurados de espírito." Esses que estavam "perecendo" (doentes terminais) deviam tomar alguma coisa que lhes anestesiasse a dor. Note que também aqui o conselho é dado a doentes, e não a pessoas sadias.

Passemos, agora, à segunda hipótese: O vinho seria sem álcool, o puro suco de uva. Ingerir vinho não fermentado não é condenado pelas Escrituras Sagradas. Se aceitamos a hipótese de que o vinho recomendado por Paulo era sem álcool, isso também estaria de acordo com as propriedades medicinais da uva. O álcool realmente era usado como anestésico, pois as pessoas perdiam um pouco dos seus sentidos; incluindo dores físicas. Mas, a uva em si, possui poderes medicinais para problemas estomacais.

Paulo, então, estaria dizendo a Timóteo que suco de uva seria benéfico ao seu estômago, de preferência à água muitas vezes de qualidade duvidosa e contaminada, como acontecia já naqueles dias. "Nos dias de Paulo, como agora, a água em muitas localidades não era segura para uso. Doenças físicas, como a disenteria, frequentemente estavam relacionadas com água contaminada, sendo de comum ocorrência. Consequentemente, outras maneiras de matar a sede eram frequentemente recomendadas." (Seventh-day Adventist Bible Commentary, v. 7, p. 314). Nesse caso, vinho (suco de uva) seria preferível à água impura (J. N. D. Kelly. 1 e 2 Timóteo e Tito, p. 123).

Devemos concordar que as bebidas fermentadas - alcoólicas - confundem os sentidos e pervertem as capacidades do ser humano [Pv 23.29-32]. Vinho fermentado não é um produto natural e o Senhor nunca o produziu e nada tem a ver com a sua produção. Paulo certamente orientou Timóteo a tomar um pouco de vinho por causa de seu estômago e de suas frequentes enfermidades, porém creio - pelas evidências - que se tratava de suco de uva não fermentado.

Em Provérbios 23.32 a Palavra de Deus nos retrata o consumo de bebida alcoólica como sendo um caminho de morte, quando diz: "No fim, picará como a cobra, e como o basilisco morderá." Em Efésios 5.18 diz-se: "E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos do Espírito Santo." Em outras traduções diz que no vinho há "devassidão" ao invés de "contenda". E Provérbios 20.1 fala-se: "O vinho é escarnecedor, a bebida forte alvoroçadora; e todo aquele que neles errar não será sábio."

Podemos facilmente concluir que a Bíblia não apoia, realmente, o consumo de bebidas alcoólicas; seja em menor quantidade ou em muita quantidade. E se não apoia o consumo, posso dizer que esta recomendação de Paulo a Timóteo tratava-se sobre a ingestão de vinho não alcoólico.

Continua...

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